Resenha do livro Centenas de Palavras Abandonadas no Rio + Entrevista com o escritor
Publicado no Wattpad, Centenas de Palavras Abandonadas no Rio, nos trás alguns questionamentos, mas um dos mais importante é o que é ser adulto? É apenas ter dezoito anos? Semana passada, meu professor de física falou: “ter dezoito não significa ser adulto” e quando eu comecei a ler esse livro lembrei logo dessa frase.
Escrito por YG Gunchorowski, o livro nos conta a história de um garoto que aos dezesseis anos, sentado em um banco, decide ser escritor, mas não um escritor qualquer, um ótimo escritor, com isso ele começa a sonhar em ter suas obras estudadas por professores e filas enormes em lançamentos. Ele escreve todo o enredo de sua primeira história, em meio a isso, ele é convidado para um aniversário de quinze anos e lá conhece uma garota que sabe que o garoto é escritor, de palavras ditas entre os dois, os beijos aparecem e tudo que ele vive naquela noite inspira ele a escrever mais ainda.
Um namoro começa, mas nem tudo é como as pessoas querem e as vezes é preciso sacrificar algumas coisas para terem outras. Depois de um lançamento fracassado, o garoto se muda para a capital e desiste do sonho de ser escritor e se torna algo que ele temia se transformar. Ele se transformou em adulto.
Com nove partes e referências a animes, escritores e políticos, o livro narra as descobertas de um garoto que se transformar em um adulto que só se preocupar em coisas rápidas, sexo sem compromisso, um cigarro que ocupa os vazios por apenas cinco minutos. As palavras daquele garoto já não fazia sentido para a pessoa que ele se tornou e isso se transformou em um grito de liberdade que foi dado ao fim do livro, o que motivou esse grito? A criança que ele deixou morrer dentro de si.
Com um narrador inspirador e que conta a história como se fosse realmente um contador de histórias, o livro nos deixa questionamentos sobre a vida, sobre quem amamos e a nossa forma de amar essas pessoas, sobre o que as palavras e a escrita significa para cada um e sobre o nosso universo particular que é mais complexo do que todos imaginam.
Foi uma experiência muito sensível e tocante que me fez pensar sobre as raízes que podemos criar ou não. Em um conto bem construído, YG nos conduz por caminhos entre a felicidade e a tristeza da vida do garoto que não tem nome, um garoto que como vários outros pelo mundo inteiro se encontram nas palavras e transformam sua vida em centenas de palavras abandonadas nas páginas de um arquivo word ou em folhas em branco que serão (ou não) perdidas em alguns dias.
YG Gunchorowski nasceu em Porto Alegre e os autores que mais influenciam a sua escrita são Franz Kafka, Caio Fernando de Abreu e Asano Inio, tudo isso a gente descobre ao ler a biografia dele no Wattpad ou mesmo no facebook, por isso, eu resolvi fazer algumas perguntas para ele sobre as inspirações, escrita e claro, sobre o conto.
P.S (Parágrafo Seguinte): A primeira pergunta que quero te fazer é: como surgiu a ideia de escrever esse conto? Qual foi sua inspiração?
YG Gunchorowski: Minha frustração. Eu estava escrevendo constantemente outra história, mas não estava conseguindo colocar tudo de mim nela. Então parei, refleti e decidi deixar meus pensamentos fluírem sem filtros. Três dias depois, tinha escrito essa história. Alguns detalhes eu dei uma alinhada com fatos da minha vida, por exemplo, o banco e o rio do inicio da história existem e eu costumava passar longos minutos olhando o rio na adolescência.
P.S: Na segunda parte ou segundo capítulo, você descreve como o protagonista escreve, e eu fiquei bem curioso para saber como você escreve, se você escreve todos os dias, tem meta de escritas etc? Você demorou quanto tempo para escrever esse conto?
YG Gunchorowski: Como eu disse antes, eu escrevi o conto todo em três dias. Simplesmente deixei tudo sair. Normalmente eu tenho uma meta de escrita flexível: quanto eu conseguir. Tem dias que absolutamente nada sai, em outros sai até demais. Num dia posso escrever dez mil palavras, noutro nenhuma. É muito variável, pois não posso me cobrar demais com o tempo que tenho para me dedicar a isso. Mas uma coisa que está sempre presente enquanto escrevo é música. Eu funciono melhor ouvindo músicas. Elas me ajudam para alinhar o tempo e o ritmo da escrita.
P.S: O protagonista, logo no começo do livro, decide se torna um ótimo escritor, tão bom que professores usariam suas obras para atividades e formaria filas ao redor do mundo. Pode ser um pergunta meio boba, mas você, que tem 20 anos, imagina professores estudando suas obras como as de Edgar Allan Poe? E as adaptações Cinematográficas?
YG Gunchorowski: Esses dias rolou uma brincadeira no grupo do Wattpad Brasil sobre como seriam pôster de adaptações de nossas histórias. Claro que entrei na brincadeira, mas não me vejo assim. Obviamente seria um marco interessante, mas não vejo adaptações cinematográficas e se tornar pauta de aula como as mais importantes. Incríveis, mas não vejo minhas obras assim.
P.S: Falando no protagonista, tem muito de você no protagonista ou em algum personagem desse conto?
YG Gunchorowski: Como eu disse, essa história foi vomitada. Acho difícil não ter muito de mim em toda ela (mas não necessariamente nos personagens, talvez nas reflexões). O protagonista, porém, carrega apenas alguns traços e fatos (como o do banco que citei anteriormente). Eu nunca teria uma vida como a dele, sinceramente. Talvez a única coisa que carregamos completamente igual é o desejo de escrever.
P.S: E aquele final, como foi a sensação de escrever ele? Você pensou no futuro que o personagem poderia ter?
YG Gunchorowski: Hum… Foi divertido, mas quando eu terminei de escrever eu larguei o notebook de lado, deitei na cama e pensei: “certo, e agora?”, pois inicialmente eu não colocaria essa história em lugar algum. Também tive uma sensação de alivio, não posso negar. Foi como tirar um peso de cima dos ombros. Entretanto, nunca pensei no que aconteceria depois. Acho que fica mais interessante que as pessoas, ao lerem, determinem como preferem imaginar o restante a partir da maneira como interpretaram a história inteira.
P.S: Eu percebi que você colocou algumas referências, você se inspirou nessas referências para escrever o conto? Você se inspirar muito em referências para escrever outros contos?
YG Gunchorowski: Sinceramente? Eu nem lembro mais das referências! Pode parecer estranho falando assim, mas eu realmente tenho uma memória curtíssima. Lembro-me de ter citado Christie, Bukowski… mais alguma coisa? De qualquer forma, essas referências simplesmente saltaram durante a escrita e eu pensei “acho que vale deixar”, nada mais. Eu, sinceramente, não procuro normalmente usar referências, apenas acontece de saírem. É o trabalho do inconsciente durante a escrita, eu acho.
P.S: Também vi suas influências, que são incríveis, mais qual escritor é seu favorito?
YG Gunchorowski: nunca terei uma resposta para isso. Há tantos bons escritores. Parece injusto colocar um como o melhor na minha listinha. Todos têm seus pontos positivos e negativos, assim como todas as pessoas no mundo. Prefiro deixar essa resposta em aberto. (haha)
P.S: Como você se tornou escritor?
YG Gunchorowski: E eu sei? Certo dia eu estava ouvindo uma música e pensei “eu poderia escrever uma história em cima disso”, então escrevi. Simples assim. Depois, decidi tentar escrever uma história mais longa e comecei a primeira versão de Anima. Então eu completei e quis mais. E assim foi. Tive pausas entre meses, ano, mas sempre voltei. Acho impossível acabar de vez com isso em mim.
P.S: mudando completamente de assunto, quando eu terminei de ler o seu conto fui procurar coisas sobre você e descobri que você tem um livro publicado pela editora Multifoco, sobre o que fala o livro?
YG Gunchorowski: ‘Árvores de Plástico’ é uma história, também, sobre crescer. Aqui temos seis amigos de infância que foram se afastando até que uma das meninas do grupo comete suicídio. O baque da morte dela é tão grande que todos acabam sofrendo de uma maneira diferente, especialmente o protagonista, Pedro, que vai embora da cidade. Ele então retorna alguns anos depois para viver sua vida pós-Ensino Médio e acaba vendo o fantasma da amiga. A história então gira em torno dele tentando unificar os amigos do passado e enfrentando alguns problemas para isso enquanto precisa lidar com seus próprios demônios pessoais. É uma história sobre amizade, superação, começos e fins.
P.S: Por fim eu quero te propor um desafio, queria que você em 140 caracteres falasse sobre o conto Centenas de Palavras Abandonadas no Rio.
YG Gunchorowski: É em resumo sobre como crescer pode ser difícil, mas necessário. Por isso devemos dar um sentido a isso sem nos perdermos no caminho.
Agradeço imensamente pelo autor ter disponibilizado seu tempo para responder as perguntas e por transformar sua frustração em um conto lindo.
Para quem quiser ler o livro é só clicar aqui. Lendo este livro, você estará incentivando o escritor e valorizando a literatura nacional e independente.


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