Resenha do Livro Aquários e Entrevista com a Escritora


Escrito por Mariana Ramalho, Aquários nos leva a história de Gregório que mantém um diário e conta sua jornada para conquista a linda e delicada Melinda, mas Melinda tem 14 anos de idade e talvez Gregório possa ser o pai dela.

O livro se passa nos anos de 1950 em uma cidade onde todos se conhecem. Os encontros e desencontros narrados por Gregório se transformam em discursos em que o amor já se tornou loucura e a insanidade transformou Gregório em um ser horrível. Gregório tenta de todas as formas conquistar Melinda, mesmo sabendo que ela possa ser sua filha. Ele acaba conquistando Melinda com um homem que não parecia ser ele. Os tios dela descobrem e acabam levando ela para um lugar distante daquela cidade, o único meio de comunicação eram cartas que os dois trocavam, foi então que a ideia de fugir surgiu na cabeça dos dois.

A máscara desse homem logo caiu e o relacionamento se tornou abusivo. Durante a leitura a única música que eu conseguia lembrar era Triste, Louca ou Má do Francisco, El Hombre e Melinda me faz questionar quantas mulheres sofrem com relacionamentos abusivos e perdoam como ela fez por amor. Um amor que machuca de um lado e realmente ama do outro.

Não vou dizer que o livro é legal de ser lido e fácil, pois, não é e não falo dessa dificuldade por causa da gramática, pois, o livro é lindamente bem escrito. Mas foi muito difícil ler aquelas cenas de agressão física, psicológica e as farsas de Gregório. Mesmo que Gregório tenha destruído a pequena Melinda, não haveria outra formar de terminar aquela história.

Transformar essas histórias em livros são bem difíceis para os escritores e tenho a certeza de que não fácil para Mariana viver como Gregório por alguns meses, mas sinto que aquela história se transformou em um aviso sobre relacionamentos abusivos.

Mesmo que Aquários não seja sobre feminismo e a Melinda não seja uma personagem que demonstre ser empoderada, o livro se transforma em um aviso sobre relacionamento abusivo e mostra que infelizmente muitos tem finais trágicos.
Com inspirações em Lolita, Dom Casmurro e A Dócil, o livro percorre pela pequena cidade, pelos caminhos de terra de uma fazenda, mas também invade casas, vidas, passados, sonhos e principalmente, relacionamentos. Hoje Melinda me faz lembrar de uma frase da música citada inicio. Que homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define, você é o seu próprio lar.


A escrita de Mariana é incrível e eu queria muito fazer uma entrevista com ela e ela super atenciosa respondeu todas as perguntas. Veja abaixo as perguntas e respostas.
1) Qual foi o motivo para você escrever esse livro? Como nasceu essa ideia?
Meus livros favoritos sempre foram os que abordavam relações familiares, em sua maioria egoístas, tensas e desastrosas. Queria abordar o tema incesto sem que ele fosse o elemento principal (tanto que não fica claro se Melinda é sobrinha ou, ainda, filha de Gregório), mas sim mais um dos agravantes da relação. E, não nego, Aquários tem muito de Lolita. Apesar do segundo tratar do tema pedofilia e Gregório não ser um pedófilo, há muita comparação a ser feita entre ambas as relações. Como Lolita é um dos meus livros favoritos acredito que isso tenha me influenciado muito na criação de Aquários.
2) Preciso dizer que sua escrita é incrível e a história de Aquários é linda e, ao mesmo tempo trágica, e muito bem construída, ainda mais quando se trata de um diário, que acredito ser um pouco mais difícil. Como você escreve desde que idade? Você tem metas de escrita ou algo do tipo?
Lembro que eu escrevia umas besteiras desde os 12 anos (hoje tenho 17), mas nada sério. Antes de Aquários eu não tinha muito bem um ritmo de escrita, mas sim de leitura; tinha vontade de escrever alguma coisa, mas sentia que me faltava a experiência de ler, por isso desde um tempo eu andava lendo muitas obras, para realmente aprender como se escreve não apenas gramaticalmente falando, falo mais de conhecer as possibilidades da escrita. Metas? Acho que não, trabalho mais na base dos meus impulsos particulares mesmo. Quanto a elogio, agradeço, mas ainda duvido bastante de Aquários, por ele ser o primeiro livro que escrevi.
3) O Gregório, nos primeiros capítulos, é um personagem muito amargurado, porém, Melinda já é diferente, ela é doce e delicada, você colocou muito de si nesses personagens? Se sim, quem é mais parecido com você?
Confesso que coloquei bastante de mim em ambos. Gregório tem um problema em aceitar a velhice e de lidar com a efemeridade da vida, o que é um traço muito meu. Melinda tem uma enorme carência emocional e projeta sua salvação em Gregório; é bem coisa que eu faria e faço. Mas entre os dois eu vejo que me pareço infinitamente mais com o Gregório (o que pode soar um pouco estranho).
4) Gregório é um personagem muito intenso, depravado e insano, é um dos personagens mais marcantes que já vi em um livro. Como foi construir esse personagem tão profundo?
Olha, lembro que antes de começar a escrever o livro eu só tinha um nome para o personagem e uma vaga ideia de como ele agiria. Quando o transferi para o papel ele mudou muito e por conta própria, é até um pouco estranho me responsabilizar pela criação dele, vez que, olhando da forma como vejo, ele parece ter se criado sozinho.
5) Melinda é uma garota delicada, mas você acha que ela é uma personagem forte mesmo aparentando ser frágil?
Não acho que ela seja forte. Estamos na época do girl power e de escritores que procuram criar personagens femininas cada vez mais fortes e que dominam a situação ao invés de serem dominadas. Melinda é só uma adolescente que desde muito antes conhecer Gregório já passava por certos apertos. Não temos conhecimento de seu passado porque a narração de Gregório se nega a isso, ele é egoísta e não quer conhece-la de fato, mas em vários momentos Melinda sugere que seu passado não fora lá dos melhores, o que justifica ela ser como era, agir como agia, enxergando Gregório melhor do que ele era de verdade.
6) Você imaginou um final diferente para essa história ou sempre foi o final que essa história teve?
Aquários seguiu um caminho muito diferente do que eu pensava que seguiria. Na minha cabeça, a primeira versão dele soou mais como um romance vitoriano de fim trágico, onde o fim não era o que foi, mas sim uma conclusão que justificaria mais um amor mútuo do que a relação doentia que Melinda e Gregório possuíam. Acredito que a forma como escolhi terminar casa com a história como um todo.
7) Lendo o livro percebe-se várias referências a lindas obras de arte, você é apaixonada pelas grandes pinturas? Você tem um artista plástico favorito?
Sim, esse aspecto do livro eu injetei mais por ser uma paixão particular minha e também por achar que Aquários combinava com essa coisa de pintura. Olha, por trabalho artístico eu diria que o meu favorito é Bouguereau, mas por conjunto da obra e, especialmente, pela pessoa que foi, lotada de seus insucessos, meu título de favorito sempre irá para o Vincent van Gogh.
8) Quando eu ainda estava lendo o seu livro era um choque atrás do outro, pela questão de eu achar que era incesto ou até mesmo pedofilia, assuntos tabus que as pessoas automaticamente se afastam. Você teve medo de que as pessoas abandonassem o seu livro por ter esses assuntos?
Para esclarecer um pouco, Aquários não seria considerada uma história de pedofilia porque só se encaixa nessa parafilia relações com jovens de 14 anos ou menos, como Melinda tinha 15-16 durante a história, pedofilia seria um problema excluído do livro. Sobre ter medo de não possuir leitores... medo eu nunca tive, mas sempre considerei muito a questão de Aquários ser mais um livro meu que dos outros, já que a história dele dificilmente seria publicada, ou, ainda, comprada para se pôr na estante. Enquanto escrevia tinha como cada linha em vão, pois nada dali ficaria para a posteridade. Esse pensamento poderia ser compreendido como desestimulador ou deprimente, mas ele me deu uma liberdade maior para escrever o que de fato eu queria escrever, sem ficar me preocupando com quem leria ou não; só assim pude lidar com esses temas e cenas mais pesadas do livro.
9) Você teve inspiração três livros muito interessantes, Lolita, Dom Casmurro e A Dócil. Desses três, qual o seu favorito?
Eles são o que chamo de minha tríade e jamais ouso coloca-los em um ranking de melhor para pior, pois suas qualidades são equiparáveis. Ficarei com A Dócil por achar que ele é o que mais conversa com Aquários, além de ser curtinho e eu já ter o relido tantas e tantas vezes, construindo uma relação muito próxima com ele.
10) Por fim, defina Aquários em 140 caracteres.
Serei lacônica e definirei em uma palavra: agridoce.
11) Muito obrigado por compartilha essa história, eu amei e odiei essa história. Você pode me explicar o que significa Aquários? Eu não consegui associar o escrito com a palavra como você disse no último capítulo.
A associação é mais minha e também é bem sutil. Aquários é uma palavra entre mim e uma pessoa, alguém que foi crucial para a criação do livro e, principalmente, do Gregório. Inclusive é para quem eu dediquei o livro, na epígrafe. Nunca achei que Aquários precisasse de título, afinal é um diário, mas na falta pensei que o melhor nome para o dar seria a palavra que esteve muito presente durante o processo de escrita dele.

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